segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O Reformador João Calvino e a Intercessão dos Santos

Se existe algo que eu detesto e Deus muito mais, é a mentira! O Senhor Jesus certa vez chamou os judeus de filhos do diabo por amarem a mentira e fecharem os olhos para a verdade (Jo 8:44). 

Recentemente fiquei estupefato com uma mentira descarada que ouvi da parte de um colega meu que é católico de carteirinha, ao afirmar categoricamente que o reformador protestante João Calvino não só acreditava na intercessão dos santos, mas inclusive, a pedia. 

Tal mentira por sua vez, foi extraída de alguns sites de "apologia" católico como por exemplo: (http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/protestantismo/717-calvino-pedindo-a-intercessao-de-outro-reformador-ja-morto). O mesmo site informa que Calvino chegou a invocar publicamente a intercessão de Philip Melancthon que havia falecido a pouco tempo. Segue na íntegra a declaração de Calvino a qual os papistas fazem questão de afirmar que se trata de uma oração ao defunto Melancthon: "Ó, Philip Melancthon, pois eu apelo a ti, que estais agora vivendo no seio de Deus, onde tu esperas por nós até que nós estejamos reunidos contigo no Santo Descanso. Uma centena de vezes tu dissesse, fadigado com o trabalho, e oprimido com a tristeza, tu deitastes em meu peito como um irmão, ‘Que eu possa morrer neste peito!’ Desde então eu tenho milhares de vezes desejado que isso fosse nosso destino para estarmos juntos”. (Clear Explanation of the Holy Supper, in Reid’s Theological Treatises of John Calvin, S.C.M., London, p. 258;)". 

Seria isto mesmo, uma oração da parte de Calvino, pedindo a intercessão da parte do referido falecido? Bem, vamos aos fatos:

1) Em nenhum momento neste texto vemos Calvino pedir alguma coisa ao defunto. Concordam!? A frase "apelo a ti" não é um pedido e sim a expressão de um sentimento emotivo. Apela pelo quê? é preciso ler o texto de forma integral para realmente se certificar do que Calvino estava falando e não isolá-lo e distorcê-lo ao seu bel prazer. Pelo contexto da obra que trata sobre a exposição da doutrina da Santa Ceia, provavelmente Calvino estivesse fazendo um apelo poético ao falecido reformador cuja interpretação do tema era bem mais próxima do entendimento do reformador genebrino do que a compreensão que tinham Lutero e Zwinglio (e seus seguidores).

2) O conteúdo do texto trata-se de fato, de um lamento poético e não de uma invocação ao morto. Segue abaixo dois exemplos claros da situação. Um dos exemplos é uma famosa música de Tim Maia feita para homenagear alguém falecido que diz: "Não sei porque você se foi. Quantas saudades eu senti e de tristezas vou viver e aquele adeus não pude dar...Você marcou na minha vida, Viveu, morreu na minha história, Chegou a ter medo do futuro e da solidão Que em minha porta bate...E eu...Gostava tanto de você...Gostava tanto de você...Eu corro, fujo desta sombra em sonho vejo este passado e na parede do meu quarto ainda está o seu retrato. Não quero ver pra não lembrar. Pensei até em me mudar. Lugar qualquer que não exista o pensamento em você...E eu...Gostava tanto de você, etc". Vejam que a música é cantada para alguém morto como se ele estivesse ouvindo a homenagem que lhe é feita, não tem nada a ver com invocar o defunto. O outro exemplo semelhante trata-se de nada mais e nada menos do que um poema de Carlos Drummond Andrade, intitulado "um ausente" que diz: "Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto...Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste, porque te foste". Vejam, o poeta por acaso está acusando seu amigo de fato, ou apenas expressando um sentimento emotivo devido a sua partida inesperada que não apenas deixou saudades como também assuntos inacabados?! Ora, pra mim a resposta é mais do que óbvia e a mesma situação se aplica ao que Calvino disse ao referido defunto cujo entendimento sobre a eucaristia era recíproco. Todavia, para os amantes da mentira e inimigos da verdade, que não se contentam com tais explicações porque simplesmente não lhes convém, resta-nos mostrar que em todas as suas obras, Calvino sempre refutou a doutrina da intercessão dos mortos inclusive ao ponto de chamar os supostos mediadores (santos) de espantalhos (pg.352). Tanto em seu comentário sobre as pastorais (2 Tm 2:1-5) como em sua maior obra que foi as Institutas, o reformador pegou pesado com este dogma romanista e antibíblico. Segue abaixo os tópicos que Calvino ao longo de sua vida escreveu e falou sobre a invocação de defuntos (não há espaço aqui para transcrever os parágrafos de cada tópico que se encontra no Livro 3, capítulo 20, seções 17 a 27):

1. Unicamente pela mediação e nome de Cristo nossa oração é aceitável diante de Deus;

2. O Cristo ressurreto é nosso único intercessor junto a Deus Pai;

3. Cristo é o único mediador por cuja intercessão somos ouvidos nos céus;

4. Embora sejamos em vida intercessores uns dos outros, aos fiéis não assiste a função mediatorial;

5. A intercessão atribuída aos chamados santos no romanismo não se fundamenta nas Sagradas Escrituras, e contradiz a singular mediação de Cristo além de marginalizá-la e até anulá-la;

6. A intercessão romanista dos santos engendra supersticiosa veneração dessas criaturas;

7. Os chamados santos do romanismo não podem exercer a função de intercessão;

8. Os que deixaram esta vida além de não possuírem onisciência não tem comunhão com os vivos;

9. Incompatibilidade entre a invocação patriarcal do AT e a invocação dos santos romanistas;

10. A invocação dos santos nesta vida não se perpetua no além e serve de exemplo para os vivos;

11. A invocação dos santos constitui grave sacrilégio contra a suficiência da intercessão de Cristo.

Bem contra fatos não há argumentos! E o fato é que Calvino foi durante toda sua vida e ministério, veementemente contra o dogma da intercessão dos santos. As institutas começou a ser publicada no início do ministério do reformador como edição de bolso e sua última edição terminou como um vasto compêndio teológico. Se Calvino tivesse mesmo feito uma invocação a Melancthon pedindo sua intercessão, com certeza os membros de sua igreja bem como os demais reformadores o teriam refutado publicamente e não existe nada documentado neste sentido. E outra, será que Calvino sofria de mal de alzheimer? Para entrar em gritante contradição pública? nem preciso responder!

Logo, o que estes sites de "apologia" católica tem atribuído ao reformador neste particular, não passa de falácia e grotesca mentira. E como eu falei no início da postagem, a mentira não procede de Deus e sim do Diabo. Sendo assim, sugiro aqui aos responsáveis por estes sites que sejam mais honestos em suas publicações e parem de pecar contra o nono mandamento que diz: "Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo - Ex 20:16". Amém

Pr.Samuel Santos (3ª Igreja Evangélica Congregacional de João Pessoa - AIECB)